Sem vender a alma
Às vezes a vida derruba-nos sem pedir
licença.
Não pergunta se estamos fortes, se temos tempo, se
estamos prontos.
Simplesmente empurra, desarma, desmonta tudo o
que tínhamos planeado.
E caímos.
Caímos mesmo, sem
metáforas, sem grandeza.
Caímos da forma mais humana: com medo,
com dúvidas, com o silêncio apertado na garganta.
E enquanto
tentamos levantar-nos, enquanto procuramos ar dentro de um peito que
parece pequeno demais, ouvimos conselhos que não pedimos:
"Há
caminhos mais rápidos."
"Há portas que se abrem se souberes
jogar."
"Há quem avance sem lutar, apenas porque sabe
mover-se no jogo."
Mas alguns de nós não nasceram para
esse jogo.
Alguns de nós não reconhecem como vitória aquilo que
chega pelas mãos erradas.
Não procuramos atalhos que roubem o
mérito, nem caminhos onde a dignidade precise de ficar à porta.
Há
quem prefira perder tempo a perder-se de si mesmo.
Há quem
prefira não chegar, do que chegar à custa da própria
verdade.
Esses são os que recomeçam.
E recomeçar não é
bonito, não é romântico, não é motivacional todos os
dias.
Recomeçar cansa.
Cansa os ossos, cansa a fé, cansa os
sonhos.
Mas é no recomeço que descobrimos quem somos quando
ninguém está a ver.
Porque quando tudo é fácil, até os fracos
parecem fortes.
Mas quando tudo ruge contra nós, só os
verdadeiros continuam.
Recomeçamos quantas vezes forem
necessárias, mesmo quando já não sabemos se a força que sentimos
é força… ou teimosia.
Mesmo quando as mãos tremem ao tentar
reconstruir aquilo que a vida levou sem aviso.
Mesmo quando o
coração nos pede descanso, mas a alma sussurra baixinho:
"Só
mais uma vez."
E no intervalo entre o que fomos e o que
ainda não conseguimos ser, aprendemos.
Aprendemos que cair não é
sinónimo de falhar.
Falhar é desistir de tentar.
Cair é
apenas parte do caminho de quem ousa viver de verdade.
Aprendemos
que o mundo nem sempre recompensa o que é justo,
mas nunca
esquece o que é genuíno.
Aprendemos que aquilo que chega pelas
nossas mãos tem outro peso, outro valor, outra raiz.
Porque o que
vem depressa pode partir do mesmo modo.
Mas o que é conquistado,
permanece.
Um dia, quando olharmos para trás, talvez
percebamos que os dias que mais doeram foram os que mais nos
moldaram.
Que cada queda foi um capítulo necessário,
que cada
recomeço foi um voto de confiança em nós,
e que cada porta
fechada nos empurrou para lugares onde realmente pertencíamos.
E
então, nesse dia, não nos orgulharemos apenas da conquista,
mas
de tudo o que recusámos ser para chegar até ela.
Porque quem
alcança um sonho sem perder a alma,
sem trair a sua essência,
sem
deixar que a pressa mate a verdade,
não conquista apenas um
destino.
Conquista respeito próprio.
Conquista
paz.
Conquista a certeza de ter vivido de cabeça erguida,
mesmo
quando o chão parecia o único lugar possível.
E isso, por
mais poder que o mundo tenha,
ninguém nos pode tirar.