Aqueles que já partiram

Há presenças que o tempo não apaga - apenas silencia.
São vozes que ficaram a meio de uma frase,
olhares que ainda se fazem sentir quando o vento muda de direção.

Aqueles que já partiram não vivem no passado - habitam nas entrelinhas do agora,
nos gestos que repetimos sem perceber,
no silêncio que às vezes pesa e às vezes conforta.

Não se foram por completo.
Transformaram-se em lembrança,
em luz discreta que nos guia quando o mundo parece escuro demais.

E talvez seja isso o eterno - não durar para sempre,
mas permanecer de um modo que o coração reconhece,
mesmo quando os olhos já não veem.

Há dias em que parecem mais próximos,
como se a distância entre o "aqui" e o "lá" fosse apenas um sopro.
Um perfume esquecido no ar,
um pensamento que surge sem ser chamado,
uma paz que chega sem explicação.

Nessas horas, o tempo deixa de ser linha - torna-se círculo.
E tudo o que fomos, tudo o que vivemos,
retorna em silêncio, para nos lembrar,
que nada verdadeiramente bonito se perde.

Porque a ausência não é o fim - é apenas outra forma de presença.
Um eco mais suave, um brilho mais distante,
um modo discreto de continuar.

E enquanto houver alguém que recorda,
um coração que se comove,
um gesto que nasce da saudade,  eles permanecem - não no corpo, mas no infinito que cabe dentro de nós.

E se escutarmos com atenção,
há qualquer coisa no mundo que ainda fala por eles.
O murmúrio do mar ao anoitecer,
o canto inesperado de um pássaro,
a luz que atravessa as nuvens num instante perfeito - tudo parece dizer: "ainda estou aqui."

Porque talvez partir não seja ir,
mas mudar de forma - tornar-se parte de tudo.
Parte do ar que respiramos,
do sol que aquece as manhãs frias,
da calma que nos visita quando já não esperamos.

Aqueles que já partiram continuam a ensinar-nos
que o amor não precisa de presença para existir,
nem de tempo para continuar.
Ensinaram-nos que a vida não se mede em dias,
mas na intensidade com que deixamos marcas nos outros.

E assim, cada lembrança é uma semente.
Cada lágrima, uma oração.
Cada sorriso que nasce da saudade,
um reencontro em silêncio.

No fundo, ninguém parte por inteiro.
Há sempre um vestígio,
um fragmento de eternidade escondido nas pequenas coisas.

E quando o coração se aquieta,
quando a dor amacia e dá lugar à paz,
percebemos que o amor - esse sim - nunca soube dizer adeus.

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