MERECER.

Há uma palavra em que muitos de nós crescemos a acreditar: merecer.

Ensinaram-nos que quem trabalha, quem é honesto, quem respeita os outros e faz o bem, acaba por colher os frutos.

Que o esforço é recompensado.

Que o carácter tem peso.

Que a verdade, mais cedo ou mais tarde, vence.

Mas a vida tem uma forma curiosa de nos mostrar que nem sempre é assim.

Há pessoas que dão tudo o que têm e continuam à espera da oportunidade que nunca chega.

Há quem trabalhe sem descanso e continue a sentir que está sempre a remar contra a maré.

Há quem se entregue de corpo e alma, enquanto vê outros chegar primeiro sem nunca terem percorrido o mesmo caminho.

E isso dói.

Dói porque todos precisamos de sentir que aquilo que fazemos tem valor.

Que o nosso esforço é visto.

Que as noites mal dormidas, os sacrifícios, as renúncias e as horas de trabalho serviram para alguma coisa.

Mas a verdade é que o mundo nem sempre distingue quem mais merece.

Vivemos num tempo em que, muitas vezes, a aparência vale mais do que a essência.

Em que se faz muito barulho para mostrar o que se é, e pouco silêncio para realmente o ser.

Em que o reconhecimento parece chegar mais depressa a quem sabe chamar a atenção do que a quem trabalha todos os dias, longe dos aplausos.

É uma realidade dura.

E talvez seja por isso que tantas pessoas vivem cansadas.

Não do trabalho.

Mas da sensação de que, por mais que façam, nunca é suficiente.

No entanto, há uma coisa que a vida também acaba por ensinar.

Chega um momento em que se percebe que viver à espera da aprovação dos outros é uma prisão.

Que procurar constantemente reconhecimento é entregar nas mãos dos outros o valor daquilo que somos.

E isso é um peso demasiado grande para carregar.

Há uma liberdade enorme quando deixamos de tentar convencer quem nunca quis compreender.

Quando deixamos de responder a todas as críticas.

Quando deixamos de explicar as nossas escolhas a quem nunca esteve presente para caminhar ao nosso lado.

É nesse momento que nasce a paz.

Uma paz discreta.

Daquelas que não precisam de ser publicadas.

Nem aplaudidas.

Apenas vividas.

Porque, no fim, o verdadeiro sucesso talvez nunca tenha sido chegar primeiro.

Talvez seja chegar de consciência tranquila.

Poder olhar nos olhos de qualquer pessoa sem baixar a cabeça.

Poder andar na rua sem máscaras, sem personagens e sem arrependimentos.

Saber que se fez o melhor possível, mesmo quando a vida não devolveu o mesmo.

Porque há coisas que ninguém nos pode tirar.

A honestidade.

A dignidade.

A forma como tratamos os outros.

A tranquilidade de quem não precisou de passar por cima de ninguém para chegar onde chegou.

E talvez o maior sinal de maturidade seja este.

Perceber que nem todas as batalhas merecem ser travadas.

Que nem toda a opinião merece resposta.

Que nem toda a injustiça merece a nossa paz.

Há momentos em que a maior vitória não é provar que temos razão.

É seguir em frente.

Mais leves.

Sem o peso de querer agradar a toda a gente.

Sem a necessidade de sermos reconhecidos por quem nunca nos soube ver.

Porque o valor de uma pessoa nunca depende da validação que recebe.

Depende da forma como escolhe viver.

E há uma paz imensa quando se deixa de correr atrás do reconhecimento e se começa, simplesmente, a caminhar ao ritmo da própria consciência.

Porque, no fim de tudo, há uma verdade que o tempo acaba sempre por confirmar:

Nem sempre a vida dá a cada um aquilo que merece. Mas dá sempre a oportunidade de escolher quem queremos ser, apesar dela.

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