Isto não é sobre o Capuchinho Vermelho

Era uma vez uma menina que caminhava sempre de coração aberto.

Levava um pequeno cesto nas mãos, mas era no peito que transportava o que tinha de mais precioso: a capacidade de acreditar nas pessoas.

Nunca aprendera a desconfiar. Via bondade onde os outros viam perigo. Ouvia promessas como quem ouve música. E acreditava que todos caminhavam com a mesma verdade que levava dentro de si.

Talvez por isso sorrisse com facilidade. Talvez por isso oferecesse tempo, atenção e afeto sem fazer contas. Há pessoas que nascem assim. Não porque desconheçam a maldade do mundo, mas porque escolhem começar sempre pelo lado da esperança.

Diziam-lhe para não abandonar o caminho.

Mas ninguém lhe explicou que, por vezes, os desvios mais perigosos não são feitos de terra ou de pedras.

São feitos de palavras bonitas. De gestos que parecem sinceros. De olhares que sabem exatamente o que queremos encontrar. De quem aprende a vestir a voz daquilo que mais desejamos ouvir.

A floresta era bonita.

Cheia de árvores altas, de luz que atravessava as folhas e de caminhos que pareciam prometer sempre um destino melhor.

Talvez seja por isso que tantas vezes nos esquecemos de que nem tudo o que é bonito é seguro. E que nem tudo o que nos sorri conhece o significado da bondade.

Um dia, a floresta deixou de ser apenas um lugar.

Passou a ser todas as escolhas difíceis. Todas as dúvidas. Todas as pessoas que aparecem quando ainda não sabemos distinguir quem nos aproxima da luz e quem nos afasta dela.

E a menina caiu.

Não porque fosse fraca.

Mas porque um coração puro acredita antes de suspeitar.

Durante algum tempo, pensou que o erro tinha sido confiar. Questionou a própria forma de olhar o mundo. Tentou convencer-se de que talvez fosse melhor construir muros onde antes existiam pontes.

Mas havia qualquer coisa dentro dela que resistia.

Porque a vida pode ensinar-nos a sermos prudentes, mas nunca deveria obrigar-nos a deixar de ser humanos.

Então compreendeu que crescer não significa endurecer.

Significa aprender a reconhecer a diferença entre quem nos segura a mão e quem apenas espera que a larguemos para nos ver cair.

Percebeu que nem todas as presenças são abrigo. Que nem todas as palavras são verdade. E que há silêncios muito mais honestos do que certas promessas.

Aprendeu que confiar continua a ser bonito...mas escolher em quem confiar é uma forma de sabedoria.

Descobriu que podia continuar a ser doce sem ser ingénua. Que podia continuar a acreditar sem fechar os olhos. E que proteger o coração não é torná-lo inacessível, mas entregá-lo apenas a quem sabe cuidar dele.

A partir desse dia, continuou a atravessar florestas.

Algumas continuaram densas. Outras pareciam intermináveis.

Mas já não caminhava com medo. Nem caminhava distraída.

Caminhava consciente.

Sabia que continuaria a encontrar quem confundisse gentileza com fraqueza. Quem tentasse mudar-lhe o rumo. Quem lhe prometesse atalhos que nunca chegavam a lado nenhum.

Mas também sabia que existiam pessoas capazes de caminhar ao seu lado sem lhe pedir que deixasse de ser quem era.

E foi talvez essa a maior descoberta de todas.

A coragem não está em nunca encontrar lobos.

Está em nunca permitir que um lobo nos convença de que todos os caminhos escondem perigo.

Porque crescer não é perder a inocência.

É aprender a entregá-la apenas a quem a sabe guardar.


ISTO NÃO É SOBRE O CAPUCHINHO VERMELHO. 

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