
Quando o Mundo Cabia no Quintal
Havia um tempo em que o mundo cabia inteiro no quintal.
Um tempo em que o riso se espalhava pelos telhados
e o sol parecia demorar-se só para nos ver brincar.
As tardes eram longas e cheias de vozes -
os primos a correr pela casa, as gargalhadas a encher o ar,
os avós sentados à sombra, a ver-nos crescer com aquele olhar que sabia tudo.
Havia cheiro a bolo no forno, café acabado de fazer,
e o som das conversas cruzadas - tão familiares, tão nossos -
que pareciam música.
Brincávamos até o corpo pedir descanso.
Inventávamos mundos com paus, cordas e pedras,
corríamos atrás do vento e acreditávamos que ele nos conhecia pelo nome.
Caíamos, chorávamos, e logo alguém nos levantava -
um colo, uma mão, uma palavra doce que curava tudo.
E havia os amigos.
Aqueles que não nasceram da mesma família,
mas que o tempo tratou de transformar em irmãos.
Estavam sempre lá - nas tardes infinitas, nas brincadeiras inventadas,
nas confidências sussurradas à sombra das árvores ou nos degraus das portas.
Alguns seguiram outros caminhos, afastaram-se sem querer,
mas há outros que continuam até hoje,
ligados por uma memória que o tempo não conseguiu apagar.
Porque há amizades que não precisam de presença constante para continuar vivas -
basta uma recordação, uma gargalhada antiga,
e tudo volta a ser como dantes.
Ao fim do dia, juntávamo-nos à mesa grande.
A comida passava de mão em mão,
as histórias misturavam-se com risos e lembranças,
e os adultos diziam sempre: “comam mais um bocadinho, estão a crescer”.
E nós ríamos, porque crescer parecia tão longe.
Alguns já não estão -
os que faziam as melhores sopas,
os que contavam as histórias mais antigas,
os que dançavam na sala sem precisar de música.
Mas, às vezes, quando o cheiro do pão quente atravessa a casa,
ou quando o riso dos primos volta a encher o ar num reencontro,
é como se todos voltassem por um instante.
Há presenças que o tempo não apaga.
Vivem nas fotografias amareladas, nas expressões que herdámos,
nos gestos que repetimos sem dar por isso.
Estão em cada gargalhada que se solta sem motivo,
em cada abraço demorado,
em cada olhar que diz: “é bom ter-te aqui”.
Havia uma felicidade tão simples e tão inteira
que nunca mais a conseguimos explicar.
Era estar juntos. Só isso.
Era correr, brincar, partilhar - sem pressa, sem filtros, sem medo.
E mesmo agora, quando a vida nos empurra para longe uns dos outros,
há dias em que basta fechar os olhos para voltar lá:
ouvir o som das cadeiras a arrastar,
sentir o calor das mãos que já não estão,
e perceber que, de alguma forma, nunca deixámos aquele quintal.
Porque a infância não se perde.
Ela vive em nós - nas memórias, nos cheiros, nos risos que ficaram.
E há um pedaço de cada um que partiu a sorrir connosco,
sempre que o coração volta a casa.