A Princesa e a Ervilha

Era uma vez uma jovem que, desde pequena, ouvia a mesma frase.

"És demasiado sensível."

Diziam-lho quando se emocionava com facilidade. Quando uma palavra lhe ficava no coração durante dias. Quando chorava por quem nem sequer conhecia. Quando se preocupava mais com o bem-estar dos outros do que com o seu próprio.

Com o tempo, começou a acreditar que sentir era um defeito.

Aprendeu a esconder lágrimas. A sorrir quando lhe apetecia ficar em silêncio. A fingir que nada a magoava, para que ninguém voltasse a dizer que exagerava.

Mas há coisas que não desaparecem só porque aprendemos a escondê-las.

Continuam lá.

Silenciosas.

À espera de serem compreendidas.

Diziam que, numa certa noite, colocaram uma pequena ervilha debaixo de muitos colchões.

Toda a gente acreditou que aquela história servia para provar quem era uma verdadeira princesa.

Talvez não.

Talvez a ervilha nunca tenha sido um teste.

Talvez fosse apenas uma metáfora.

Porque há pessoas que conseguem sentir o peso daquilo que os outros nem sequer reparam que existe.

Sentem uma palavra dita sem cuidado.

Um silêncio que muda de significado.

Um abraço dado por obrigação.

Uma ausência escondida atrás da desculpa de sempre.

Não porque sejam frágeis.

Mas porque ainda não deixaram o coração endurecer.

Vivemos num tempo em que a sensibilidade é muitas vezes confundida com fraqueza.

Como se sentir muito fosse um problema.

Como se a indiferença fosse uma virtude.

Como se fosse admirável passar pela vida sem que nada nos tocasse.

Mas talvez o mundo não precise de menos pessoas sensíveis.

Talvez precise de mais pessoas que pensem antes de falar. Que saibam que as palavras permanecem muito depois de serem ditas. Que compreendam que há gestos pequenos capazes de aliviar dias inteiros.

A jovem demorou muitos anos a perceber que nunca foi a ervilha que a impedia de dormir.

Era a falta de cuidado.

Era a ausência de verdade.

Era viver num mundo onde se normalizou dizer: "Não foi nada."

Quando, para alguém, tinha sido tudo.

Então deixou de pedir desculpa por sentir.

Percebeu que a sua sensibilidade nunca foi um peso.

Era uma forma de ver aquilo que muitos deixavam passar.

Hoje, se a vires caminhar, talvez continues a pensar que sente demasiado.

Mas talvez seja exatamente o contrário.

Talvez o mundo tenha aprendido a sentir de menos.

Porque há corações que não nasceram para endurecer.

Nasceram para lembrar aos outros que a delicadeza também pode mudar uma vida.

E talvez a verdadeira princesa nunca tenha sido aquela que sentiu uma ervilha debaixo de vinte colchões.

Talvez tenha sido aquela que, mesmo vivendo num mundo cada vez mais distraído, nunca perdeu a capacidade de sentir o que realmente importa.


E sabem? Continua a não ser sobre a princesa e a ervilha! 

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