Transbordar

Há quem nasça a acreditar que o mundo é um espelho...e que só será amado se o reflexo agradar.

Aprendem cedo a medir-se: o riso, o corpo, o passo. A voz que sai, o olhar que fica. E vão encolhendo, devagar... sem dar por isso.

Chamam-lhe crescimento. Mas é apenas a arte triste de caber.

Trocam o cabelo, a roupa, a pele. Apagam o sal da voz porque alguém disse que doía ouvi-la. Afinam gestos, dobram emoções, disfarçam o medo com certezas.

Tornam-se suaves. Tornam-se leves. Tornam-se quase nada.

E o mundo aplaude. Aplaude o esforço, a contenção, o encaixe perfeito nas linhas da moda.

Mas ninguém pergunta quanto custa manter-se inteiro num corpo que já não respira.

Há uma beleza perigosa em caber. Um alívio momentâneo, como quem encontra abrigo numa jaula.

É quentinho, é previsível, é elogiado.

Mas, às vezes, no meio de um elogio...alguém sente o estalo discreto da alma a partir. E não sabe se o som vem de dentro ou do espelho.

Depois há os outros. Os que não cabem. Os que ficam de fora - com o riso desalinhado, as palavras que não combinam, as verdades que não se vestem bem.

Chamam-lhes intensos. Difíceis. Estranhos.

Mas são apenas honestos demais para sobreviver à estética da mentira.

Vivemos tempos em que todos querem ser "a Bela": perfeitos, fotogénicos, aceites.

Mas ninguém repara que é no "Monstro" que mora a coragem.

O Monstro não finge. Não esconde a cicatriz. Não pede desculpa por sentir.

O Monstro é o que sobra quando a máscara cai.

E, às vezes...é o único que ainda respira.

Talvez sejamos todos um pouco dos dois: a Bela que quer ser amada, e o Monstro que só quer ser visto.

Talvez a beleza não esteja no reflexo, nem no molde, nem na aprovação.

Talvez esteja no instante exato em que deixamos de pedir licença para existir.

No segundo em que o corpo se endireita e o medo vacila.

No sopro em que a voz volta a ser inteira — mesmo que tremida.

No gesto que não pede permissão.

Porque há um momento em que o espelho se parte…e, em vez de dor, há luz.
Uma luz feroz, viva, quase insuportável - mas verdadeira.

E então percebemos: não viemos ao mundo para caber.
Viemos para
transbordar!


ISTO NÃO É SOBRE "A BELA E O MONSTRO".

Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora