
Ser luz em tempo frio
Era uma vez uma menina de alma calma e olhar transparente.
Diziam que a sua pele era clara como a neve, mas o que a tornava realmente luminosa não era a aparência - era a forma como continuava a brilhar, mesmo quando o mundo à sua volta se tornava escuro.
Aprendeu cedo que o mundo nem sempre devolve o que lhe damos.
A vida, por vezes, falava-lhe com voz fria: exigia perfeição, cobrava certezas, testava a sua paciência e o seu coração bondoso.
Trazia no peito uma luz discreta - aquela que nasce em quem sabe sorrir mesmo depois de dias longos demais.
A menina percebeu que o mundo nem sempre é justo, que a bondade pode ser mal interpretada e que a doçura muitas vezes é confundida com fraqueza.
Mas mesmo assim, manteve o coração limpo.
Não porque fosse ingénua, mas porque acreditava que a leveza também é uma forma de força.
Houve dias em que se sentiu pequena diante de espelhos que não a reconheciam.
Dias em que acreditou nas vozes que lhe diziam que era pouco, que devia mudar para caber em moldes alheios.
Mas a verdade - aquela que se descobre em silêncio - é que há corações que nascem para não se moldar.
Diziam que havia nela algo de luz, como se o coração guardasse o reflexo de um inverno antigo.
Mas a vida, às vezes dura e fria, parecia querer apagar-lhe o brilho.
Quando a vida se tornou pesada demais, ela procurou abrigo - não num castelo, mas na simplicidade do trabalho e na companhia sincera de quem via nela o que era invisível aos outros.
Com o tempo, descobriu que a paciência é uma arma silenciosa, e que o trabalho feito com amor é uma forma de esperança em movimento.
A dureza da vida tentou envenená-la mais de uma vez - com palavras, com cansaço, com desânimo.
Mas ela sempre encontrou um motivo para se levantar, porque quem tem luz por dentro nunca se perde completamente no escuro.
Encontrou refúgio na simplicidade - em pequenas presenças que não pediam nada, em sorrisos que surgiam sem motivo, em mãos que ajudavam sem querer recompensa.
E, pouco a pouco, aprendeu que a doçura não é fraqueza - é resistência.
Que o trabalho também cura.
E que o amor, quando é verdadeiro, não faz barulho.
Um dia, o espelho silenciou-se.
Talvez tenha percebido que já nada havia para provar.
E quando olhou para o reflexo da água, não viu a menina ingénua que fugira do castelo, mas a mulher que sobrevivera ao espelho da vida.
Hoje, se a vires passar, não repares apenas na doçura - olha a força por detrás do sorriso.
Porque ela aprendeu que a verdadeira beleza não está em ser admirada, mas em continuar a florescer mesmo depois do inverno.
Não há coroa, nem vestido, nem história escrita.
Há apenas a quietude de quem aprendeu que a vida nem sempre é doce - mas é dela que nasce a força mais bonita: a de continuar a ser luz, mesmo quando o mundo insiste em apagar o brilho.
ISTO NÃO É SOBRE A BRANCA DE NEVE.